segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

“ IFÁ, O ORIXÁ DOS VATICÍNIOS ”

“A LENDA DE IFÁ ”.

Ifá é o Orixá de maior expressão dentro do Candomblé, possuidor de todos os mistérios do destino humano, por ser ele um Orixá de quatro olhos, dois dormem de dia e os outros dormem à noite. Foi entre todos os Orixás escolhidos por Orunmilá e Obatalá, para ser o guardião dos segredos e mistérios de ambos.

No princípio do mundo, existiam indivíduos incapazes de ouvir ver e calar, era no Reino de Abeokutá na África e no Reino de Obatalá, chegou ao ponto desses indivíduos se transformarem em clamor publico. Como não podia deixar de ser, chegou ao conhecimento dos soberanos o desgosto em que vivia seu povo, então eles resolveram em uma reunião secreta, escolher um homem que tivesse olhos e não enxergasse, tivesse ouvidos apurados e não ouvisse, e boca e não falasse.

Isto acertado resolveram eles dar uma grande festa, primeiro no Reino de Abeokutá, para onde mandaria Obatalá seus nobres, e a segunda no Reino de Obatalá, para onde mandaria o seu Rei a neta de seus nobres, e assim foi feito. Os nobres de Obatalá foram convidados pelo Reino de Abeokutá, e Ifá magnificamente recepcionados com o banquete e festa a eles oferecida. De regresso ao seu reino desmandaram a contar tudo que viram e fizeram críticas de tudo sem guardar nenhum segredo, ficando Obatalá profundamente aborrecido por não encontrar em seus nobres um capaz de guardar consigo o que sabia.

Foi então organizada a festa no Reino de Obatalá, para onde foram convidados os nobres do Reino de Abeokutá, entre eles havia um que não era bem visto pelos demais, por ser calado e gostar de andar sozinho, e também só comia tudo de dois em dois, tinha quatro olhos, como também não permitia que mulher alguma pegasse no que era seu, sempre carregava em grande saco as costas, que servia de brincadeiras para seus pares, no que ele sempre respondia um dia vocês virão a precisar de mim. No que aumentava as brincadeiras dos seus pares. Assim partiram eles para o interior da costa da África, sem darem maior importância ao nobre de saco nas costas. Lá chegando de tudo reparavam e criticaram sem lembrarem-se que ali estavam como nobres convidados de Obatalá, a não ser o velho de saco às costas, que tudo via e nada via, tudo ouvia e nada dizia, assim chegou o dia do banquete onde havia de tudo do bom e do melhor de comidas africanas: ovelha, galos, galinha, patos, galinha d’angola, ogbi, obi, orobô, cebola, óleo de dendê, vinho de palmeira, ebô, bananas, acaçás brancos doa costa, acarajé, abará, efó, ekurú, vatapá, caruru e aberém.

E assim como toda a comitiva comeram e beberam a vontade, porém o nosso velho que de tudo comia colocava um pedaço no saco que trazia consigo, como também de tudo que bebia colocava em pouco em uma cabaça, e que aumentou mais a crítica de seus pares, que não hesitaram em chamá-lo de guloso. Ao regressarem ao seu Reino, vieram eles a comentarem e criticar tudo que viram e ouviram, deixaram o velho do saco para trás, pois que do seu saco exalava um grande mau cheiro.


Pois antes do regresso Obatalá, mandou que seus servos partissem tantos obis, quantos era o número dos seus convidados e enchesse de ouro e prata, e ofertou a cada um deles uma bolsa, dizendo-lhes que era uma lembrança da festa, eles então recusaram dizendo que não podia aceitar, por ter seu pai Orunmilá, proibido que eles comessem aquela fruta, porém, Exu não tinha fé em nada, e aceitou logo duas, ora não deixou Obatalá de censurar o procedimento de Exu, foi então que explicaram a história de Exu. E assim chegaram eles ao Reino do seu Pai, que imediatamente passou a interrogá-los e eles não esclareciam nada do que viram e ouviram, quando o pai perguntou-lhes se não tinham lembrado dele, aos seus nobres, responderam-lhe:

- Não o esquecemos um só minuto, Senhor Então perguntou o Pai:

-E que provas me dás de que não me esqueceram?

Eles abaixaram a cabeça e nada responderam, e por sentir a falta de nosso velho, por ele perguntou:

- Onde está o homem de quatro olhos?

Responderam que ele vinha muito atrasado, pois carregava um enorme saco cheio de tudo que havia no banquete exalando mau cheiro. Ordenou então que ao chegar viesse a presença dele, Orunmilá.

Exu que chegou todo sujo e esfarrapado pegou seus dois orobôs partiu os para cozinhar e comê-los, eis que teve a surpresa, por encontrar prata e ouro em profusão, mais do que depressa correu a loja e comprou o que havia de melhor e ricamente trajado apresentou-se no meio dos outros que admirados perguntaram:

- Kiloxê, Oumim Oba-Obé.

Respondeu-lhes Exu:

- Xale, Ogun o Nirê, Oreguê, Forogun, Madê Oreguedê.

Dois dias depois chegou o nosso velho, que se apresentou imediatamente ao pai, ora, os seus pares correram logo para assistirem o que ele iria dizer ao Pai, e assim ficaram na expectativa, aí na presença de todos passou o Pai a travar com o nosso velho o seguinte diálogo:

Pai: - como foi a viagem meu filho?

Velho: - bem meu pai.

Pai: - que viste e ouviste por lá?

Velho: - Senhor, vi e ouvi muita coisa.

Pai: - e não me contas o que viste e o que ouvistes?

Velho: - Senhor, eu fui convidado, e não espião, por isso não fica bem dizer o que vi e ouvi, porque nada do que vi e ouvi refere-se ao nosso Reino.

Pai: - e lá tu lembraste de mim?

Velho: - sim, meu Pai.

Pai: - e que provas me dá?

Velho: - eis aqui meu Senhor, abrindo o saco mostrou ao Senhor seu pai tudo o que nele havia, dizendo, sei que não serve para meu Pai comer nem beber, porém foi a única maneira que encontrei de provar que não estava esquecido de Vós.

Então o Pai, levantou-se e perante todos abraçou seu filho dizendo:

- Tu serás o guardião de meus segredos, só tu participarás e só tu poderás revelar o passado, o presente, e o futuro de todos nós. Serás o grande conselheiro do meu reino, e serás ouvido em todas as questões que houver. Tu serás o grande inimitável Ifá. Eis porque, quando alguém encontrar um velho e de abada amarelo com barrete na cabeça, um fio de contas verde e amarelo no pescoço, e uma mochila do lado que traz dentro dela uma esteirinha de costa, 42 búzios da costa, um obi, um orobô, e oito bolinhas de dendê. Estará diante de Ifá, que bem poucos Babalorixás conhecem.
Este Orixá, não incorpora na cabeça de ninguém, quando porém, alguma pessoa tem a ventura de tê-lo como principal, o Orixá Ifá, faz-o o assentamento de Ifá, e faz-se Orixá Ogun ou Oxun. As Oxun, que se faz no lugar de Ifá, são as seguintes: Oxun Abotô, Oxun Ypondá, Yêyê Mouô, que são as Apetibi de Ifá.

terça-feira, 1 de julho de 2008

A Rotina


Rotina...


A idéia é a rotina do papel.
O céu é a rotina do edifício.
O inicio é a rotina do final.
A escolha é a rotina do gosto.
A rotina do espelho é o oposto.
A rotina do perfume é a lembrança.
O pé é a rotina da dança.
A rotina da garganta é o rock.
A rotina da mão é o toque.
Julieta é a rotina do queijo.
A rotina da boca é o desejo.
O vento é a rotina do assobio.
A rotina da pele é o arrepio.
A rotina do caminho é a direção
A rotina do destino é a certeza.
Toda rotina tem a sua beleza.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Oye a Suprema Iniciação !!!!

É um erro comum das pessoas acreditarem que nós nos envolvemos, e envolvemos os nossos poderes, em mistério por vontade nossa; que desejamos manter nosso conhecimento para nós mesmos, e que por nossa própria vontade nos recusamos a transmiti-lo (...). A verdade é que, até que o neófito atinja a condição necessária para aquele grau de Iluminação para o qual ele está qualificado e apto, a maior parte dos segredos, se não todos eles, é incomunicável. A iluminação deve vir de dentro de seu asé . Até lá, nenhum truque de encantamento ou jogo de aparências, nem palestras ou discussões metafísicas, e tampouco penitências auto-impostas, podem dar este direito . Todos estes são apenas meios para um fim, e a única coisa que podemos fazer é dirigir o uso destes meios (...). E há milhares de anos que isto não é segredo. Jejum, meditação, castidade em pensamento, palavra e ação; silêncio durante certos períodos de tempo ( Preceito ) para permitir que a própria natureza fale a quem se aproxime dela em busca de informação; domínio das paixões e impulsos animais; completa ausência de egoísmo nas intenções. A maneira como tudo isso deve ser posto em prática de modo que seja adequado para cada temperamento, é, naturalmente, tema de experimentação da própria pessoa e da cuidadosa observação de seu iniciador . Isso é de fato uma parte do seu aprendizado, e seu iniciador só pode ajudá-lo com a sua experiência e força de vontade, mas não pode fazer nada mais que isso, até a última e suprema iniciação ( Oye ) , (deká ) .
Asè .

terça-feira, 18 de março de 2008

DIÁLOGO COM UM ATEU

Foi um encontro casual, em uma tarde, no alto do Cabo de Santo Agostinho, um penhasco na fímbria do mar, no extremo nordeste do Brasil. Voltando de uma longa caminhada pela mata, decidi descansar por alguns instantes no forte português abandonado, gozando a brisa fresca, nas sombras da tarde. Um homem de idade aparentando uns 60 anos, vestindo uma bermuda branca e uma camisa de seda azul que o vento agitava velozmente nas suas costas, estava sentado sobre um velho canhão. A peça de ferro, recém-pintada em preto luzidio, apontava para o horizonte na posição, talvez, de seu último tiro contra as esquadras holandesas.

Acercando-me do homem – provavelmente um turista de recursos, e uma pessoa excêntrica, por estar ali completamente só –, comentei, para iniciar uma conversa:

— As caravelas portuguesas disparavam salvas, quando passavam à vista deste cabo, para saudar a Nossa Senhora de Nazaré, que tem sua imagem na ermida junto ao farol...

Ele, que já me fitava, respondeu com vagar:

— Gastavam pólvora assim? Pobre gente! – disse. – Tipos supersticiosos, aqueles nossos avós. Corajosos no mar e ao mesmo tempo medrosos do destino; hoje somos escravos de crenças ridículas transmitidas por esses nossos ancestrais incultos.

— Não tem religião? – perguntei-lhe.

— Sou ateu, respondeu ele. – Mas não sou esse ateu comum, que nega sem pensar e sem refletir. Eu refleti muito para chegar à convicção de que Deus não existe.

— Sou católico – disse eu.
— Ah!... Humm... A maioria é... – murmurou o ateu, observando-me enquanto eu me acomodava sobre a muralha, onde também coloquei minha mochila. Lá em baixo, as ondas avançavam com violência e estrondo sobre as rochas do penhasco, para recuar mansamente espalhando sua espuma branca entre labirintos de pedras negras. O céu ganhava tintas alaranjadas, reflexos do sol que se punha do lado oposto, oculto pela mata luxuriante. Tanto poder e beleza, não seria uma prova de que Deus de fato existe?

Era a primeira vez que eu falava com um ateu convicto. Encarei-o com um sorriso – para evitar qualquer suspeita de antagonismo da minha parte – e indaguei que razão tinha para não crer. Sua fisionomia permaneceu calma e amistosa, enquanto respondia:

― Acompanhe o meu raciocínio – pediu ele. – Se Deus existe, não poderia existir sem ter criado este mundo que conhecemos. E neste mundo predomina o mal, ele está cheio do mal. Portanto ou – primeiro –, Deus criou o mundo e também o mal que nele vemos, e então não é um deus perfeito; ou, – segundo –, criou o mundo e não tem poder bastante para afastar o mal, logo não é infinitamente poderoso; ou – terceiro –, colocou propositadamente o mal no mundo para nos afligir e, nesse caso, não é sumamente bom e misericordioso.

Ensaiei interrompê-lo para protestar, mas ele se me antecipou:

― Não me diga, como o seu filósofo Agostinho, que o mal não tem existência própria, e apenas significa a ausência do bem. Não concordo. Ele mesmo considerava como mal alguém agir contra as Tábuas da Lei. Portanto, o mal existe e pode ser praticado. Ora, se Deus criou o bem e o mal para ver qual dos dois vence na alma de uma pobre criatura, isto ainda é pior.

― Você falou de alma... Acredita que o homem seja corpo e espírito?

― Não acredito em almas, retrucou. – Apenas citava o seu filósofo. E posso dizer que, se existem almas e Deus perde uma delas, esta perda é um mal que atinge a Deus, e ser atingido pelo mal não vai bem com a idéia de perfeição e infinito poder. O que me diz?

― Posso facilmente responder-lhe, por partes, porque são duas as conseqüências de haver Deus dado ao homem a vontade livre. A alma somente é perdida quando exerce sua vontade para pecar. Seria uma contradição se Deus a impedisse de pecar, pois teria criado uma falsa vontade livre, e um falso livre arbítrio. Portanto, não é uma imperfeição de Deus que Ele perca uma alma.

― Mas, e o sofrimento? Um mundo que, como lembrou Voltaire, sofre tragédias como a de um grande terremoto, com perda de milhares de vidas, não é um mundo impregnado do mal?

― Ora! Você sabe que ele criticava o relativismo de Leibniz e de São Tomás, para os quais do mal podia resultar algum bem e neste caso o mal era bom. Mas eu vejo o mal por um ângulo muito diverso: ele em hipótese alguma é bom ou pode ser tolerado. Deixa-me dizer por quê: Deus criou as leis que regem o universo, as quais, seguidas à risca pela natureza, surpreendem os homens a todo instante e, quando as desconhecemos ou não podemos vencê-las, elas são a origem do sofrimento para nós. Porém, essas leis eram necessárias! Não seria possível a vontade livre se nada se movesse, se o mundo fosse rígido, imóvel; e também não seria possível exercê-la se, ao contrário, o mundo fosse completamente caótico.

Dito isto, pensei: se não existissem as leis naturais, os milagres também não aconteceriam!... – mas prossegui:

― Talvez o homem conhecesse perfeitamente essas leis naturais – esse conhecimento explicaria sua felicidade e sua pureza no Paraíso -, mas tenha perdido sua sabedoria devido a um primeiro pecado; não por praticar o mal, mas por orgulho...

― No paraíso?... – perguntou o ateu com polida ironia. Era evidente que a questão o interessava. Talvez não fosse um ateu tão convicto quanto acreditava ser.

― Sim – respondi-lhe –, e tem, na Terra, que lutar para redescobri-las, a fim de dominar a natureza, evitar o sofrimento, e reconquistar sua felicidade. Porém, quando descobre uma dessas leis, não a conhece completamente. Precisa procurar também os princípios dos quais ela deriva e chegar a princípios e leis anteriores, de modo que busca incessantemente as causas das causas. A ciência cada vez mais sente a necessidade de uma fórmula universal, um princípio que ela não possa desmontar e reduzir a outros princípios. Assim, a ciência, sem o saber, está procurando Deus, que é essa causa última.

― Aristóteles parece que foi o primeiro a falar de uma causa suficiente das coisas. Mas isto não é uma prova da existência de Deus – alegou o ateu. – Em todo efeito permanece alguma coisa do que foi a sua causa, e nas coisas do mundo não vemos nada que tenha pertencido a algo ou alguém senão ao mundo mesmo. Existem os princípios da física, os princípios da química, eles, sim, princípios perfeitos e eternos, leis imutáveis, indiferentes ao bem e ao mal.

― Não há nenhum vestígio de Deus no mundo por que Deus não se confunde nem é parte da coisa por Ele mesmo criada. Se você olha um quadro pintado a óleo, também não encontra nada do pintor, se ele não deixar seu nome escrito. Se você não quisesse acreditar na existência do pintor, você teria que supor que o pincel que deixou as marcas na tela seria a única razão do quadro existir. A ação do pincel estaria muito bem explicada pelos princípios da química e da física. Estes princípios lhe diriam, por exemplo, a força com que o pincel atingiu cada parte da tela. A disposição das linhas lhe permitiria descobrir as leis da estética aplicadas à pintura. Porém, a rigor, o quadro jamais lhe provaria a existência do pintor mais que as coisas do mundo provam que Deus existe.

O velho ergueu-se da ponta do canhão, bateu alguma poeira de sua bermuda branca e veio apoiar-se na muralha, fitando o mar. De perto, deu-me outra impressão. Talvez seu rosto não tivesse tantas rugas quanto seria de esperar devido à aparência alquebrada e gasta de sua figura. Já não lhe daria mais que uns cinqüenta e poucos anos de idade. Parecia disposto a continuar a me ouvir.

― Retornando à questão do bem e do mal, é quando cremos em Deus e na palavra revelada – continuei –, que podemos distinguir o que pode ser o verdadeiro bem e o verdadeiro mal para nós. Então se torna importante o problema da conduta moral. É incerto o que esperar de quem não tem Deus como referência moral!

― Não diga isso, por favor! protestou o ateu. – A filosofia pode nos fornecer regras para a boa conduta. Temos um dever natural que é usar nossa razão para fazermos somente o que for mais adequado, e fazê-lo segundo um raciocínio o mais amplo possível. Deus fica totalmente fora disto. Há, portanto, como ser um bom ateu desde criança – arrematou ele.

― Porém sem incluir Deus, o raciocínio não será cabalmente completo e abrangente, não será “o mais amplo possível” como você exige. Seria, como no exemplo que dei, raciocinar sobre um quadro sem levar em conta o seu autor. Afinal, quem fez o homem? Quem lhe deu consciência? Foram os princípios da física? Isto, sim! é impossível. E se você sabe que existe um Criador, você quer conhecê-Lo e ouvir Sua palavra.

Ambos falávamos sem nos exaltar – a serenidade em nosso diálogo permitia que fizessem parte do momento sensações várias que estimulavam nossa reflexão: a visão do mar azul, a brisa morna, o borrifo das ondas que vez por outra nos atingia sobre a muralha.

― Deixa-me devolver-lhe a pergunta – disse ele no mesmo tom bem humorado que mantivera em toda a conversa. – Você tem algum motivo que não aquele da “causa última das coisas” ou “porque fui educado na santa fé católica” e coisas do gênero, para acreditar em Deus?

Sua pergunta levou-me a sorrir.

― Sou um geólogo! – respondi. – O estudo da Terra leva qualquer um a refletir sobre um Criador. Imagina aqueles que estudam os astros!...

Foi só então que finalmente nos apresentamos, sem que ele dissesse muito a seu respeito. Apenas que era do Sul, estava num programa de turismo de grupo e que os companheiros haviam decidido ir até São José da Coroa Grande, e o apanhariam ali no retorno.

― Está hospedado na pensão? – perguntei-lhe. – Lá poderemos continuar a discutir o assunto, esperando pelo jantar. Talvez Dona Baixa nos ajude com alguma luz sobre a questão.

Descemos a senda do penhasco sem pressa, alcançamos o baixio que ia dar na praia norte e, pelo caminho entre os coqueiros, fomos nos acercando do aldeamento de pescadores, nos últimos momentos da luz da tarde. A pensão era um casebre um pouco mais amplo que os demais, numa posição privilegiada na longa fileira de choupanas, com um extenso coqueiral e a ampla praia bem à sua frente. Entre os coqueiros havia um pequeno coreto de paus roliços, com uma lanterna a gás pendurada no centro do teto de palha. No mar, as ondas rolavam sua longa faixa de espuma já sem brilho, em um vasto arco que atingia ao mesmo tempo as areias ao longo de toda a praia próxima e distante.

No trajeto havíamos conversado sobre os hábitos daquele povo simples e ao jantar, tendo o sulista se interessado pelo que lhe falei do meu trabalho, não retornamos ao assunto de nosso debate anterior.

À noite houve um ensaio de música para uma festa tradicional que estava próxima. Alguns músicos, sentados nos bancos toscos do coreto, tocaram pífaro e uma rabeca, e alguns pescadores cantaram versos ligeiros de muita rima, um canto meio gritado e aflito, até que as rodadas de cachaça reduziram o canto a conversas arrastadas e muito riso. Já havíamos nos recolhido aos nossos pequenos quartos quando as vozes cessaram e apenas o ronco das ondas vez por outra se fazia ouvir no silêncio da noite. No entanto, eram apenas 9 horas!

Na manhã seguinte, levantei-me cedo, e saí para fazer observações no penhasco e nas rochas vulcânicas circunvizinhas cobertas pela mata. Após um dia de trabalho, caminhando para oeste até onde principiava o canavial, e retornando pelo sul ao cair da tarde, foi com verdadeiro prazer que, depois de um mergulho no mar e um banho de caneco para retirar o sal, voltei a encontrar o ateu na pensão. Como eu, ele ia passar ainda uma noite no local.

Ao jantar, depois de trocarmos algumas palavras sobre o nosso dia, de prosearmos um pouco com Dona Baixa e saborearmos o seu pirão de peixe, voltamos ao assunto da véspera:

— Você ficou me devendo a resposta à minha pergunta – disse-me ele. – Além de uma conjectura sobre a “causa última”, ou do fato de ter sido educado católico, existe na verdade algo que o convença da existência de Deus? Nos distraímos com outros assuntos e você não chegou a expor suas razões.
— Bem... Uma coisa que me impressiona muito são os milagres – respondi. – Eu os tomo como a principal, e talvez a única prova direta que se pode ter da existência de Deus, e também dos Santos, de Maria e de Cristo.

— Fale-me apenas de Deus – atalhou ele.

— Mas você certamente considera ridículo alguém acreditar em milagres...

— Oh, não! Não considero essa crença ridícula. Na verdade, porque a idéia da bondade infinita faz parte da idéia de perfeição, a um ser que fosse perfeito não poderia faltar o deixar-se provar concretamente. Se Deus existe como os judeus e os cristãos o idealizam, como um ser perfeito e misericordioso, negar Ele próprio a prova de sua existência haveria de contrariar Sua perfeição. Apenas não entendo porque os milagres seriam prova, uma vez que não passam de fatos mal interpretados, como está definitivamente demonstrado.

A conversa que iniciamos à hora do jantar, continuamos depois à beira da praia, sob a luz de intenso luar, sentados na borda de uma jangada deixada na areia ao pé dos coqueiros.

― Não seria possível provar Deus somente no campo físico, como se prova em laboratório a pressão dos gases, a dilatação dos metais. As provas da existência de Deus precisam ser buscadas onde a Sua natureza e a natureza do homem se tocam, ou seja, onde a espiritualidade e acontecimentos extraordinários ocorrem juntos. E também não seria possível essa prova, sem que fosse vontade Dele. E, para mim, os fatos que representam essa convergência das duas naturezas e das duas vontades são principalmente os milagres. Deus se deixa provar numa relação de sua vontade com a vontade humana, justamente quando concede o milagre. É uma relação íntima em que apenas o indivíduo que recebe o milagre tem absoluta certeza de que é um ato extraordinário em que Deus se manifestou, e somente para ele trata-se de uma resposta às suas súplicas e à sua fé.

Esperei por uma objeção que não veio. Meu companheiro, curvado e algo absorto, desenterrava uma pequena concha da areia. Vez por outra pequenos caranguejos emergiam de seus buracos e saíam a andar de lado; alguns se detinham para nos fitar.

Como o ateu nada dissesse, prossegui:

– Para me fazer mais claro, deixa-me dar um exemplo. Um colega meu, passando por um lugar ermo ao norte da serra da Bocaina, em Minas, soube de uma criança que fora mordida por uma cascavel. Tomou a criança dos braços da mãe e a levou em seu carro para um hospital distante algumas centenas de quilômetros, em tempo de salvar-lhe a vida. Ora, somente para a mãe da criança o acontecido foi um milagre em resposta às suas orações. Qualquer outra pessoa dirá que não foi nada de particular entre Deus e aquela mãe, e que foi apenas sorte.

― Então, Deus apenas manipula probabilidades?

― Não digo isso, mas, ainda que Ele intervenha e inverta a ordem natural, o milagre é sempre contestável, sempre é explicável como simples fenômeno físico, ou como um fenômeno psicológico ou simplesmente atribuível à sorte, a uma certa probabilidade estatística, como se nenhuma lei da natureza houvesse sido transgredida.

O ateu objetou:

– Mas o significado de Milagre é, sabidamente, o contrário do que você diz: de acordo com a palavra latina miraculum, é alguma coisa maravilhosa, que é evidente para todos.

― Perfeitamente! O indivíduo se maravilha e em grande emoção paga uma promessa difícil, quando ele ou a sua família recebem um milagre como clara resposta às suas preces.

― Mas teria que ser algo inquestionável, como um homem que não tivesse as duas pernas e de repente se apresentasse com elas! – impacientou-se o ateu. – Uma coisa assim jamais aconteceu... Que eu saiba!

― Veja! Se tal fato acontecesse, estaria claramente e perante todos violada a lei natural. Não sobraria para ninguém aquela margem de dúvida que, em minha opinião, caracteriza o milagre. O poder de Deus estaria claramente manifestado a todos, o que tornaria completamente dispensável uma fé previamente existente. Para acontecimentos assim, capazes de despertar a fé naqueles que não a têm, deveríamos reservar a expressão testemunho.

― O milagre – prossegui – resulta de uma súplica feita com fé, enquanto o testemunho é um ato espontâneo de Deus. O milagre é secreto; o testemunho, ao contrário, é público e precisa ser investigado. O milagre, mesmo quando pedido simultaneamente por muitos, é para cada pessoa um entendimento particular com Deus. O testemunho apenas raramente é dirigido a um só homem, como foi excepcionalmente no caso do apóstolo Tomé. Enquanto o milagre inunda de felicidade, o testemunho infunde respeito e temor.

― Fico surpreso! – disse o outro. – Os fatos que estão no chamado Novo Testamento, em que a natureza teria sido claramente contrariada, assim como Cristo caminhar sobre as águas ou elevar-se ao céu ou, no que é dito ser o Velho Testamento, a travessia do Mar Vermelho pelos judeus, são narrados como milagres.

― O filósofo David Hume faz uma crítica aos fatos bíblicos dessa natureza – respondi. – Mas lhe faz falta essa distinção que eu faço, entre milagres e testemunhos. Apesar de que ele se refere indistintamente às duas coisas, seu texto é dirigido mais ao “testemunho”, e neste caso está também São Tomás, de quem se pode ver que Hume tomou parte da sua definição de milagre.

― Entendo seu ponto de vista – disse o ateu. – Resumindo: não se prova a existência de Deus com a evidência própria do método científico, porém está ao alcance do homem encontrar essa prova de modo particular, nos milagres...

— E como todo aquele que procura tal prova com certeza a encontrará, ela tem a universalidade necessária a toda demonstração científica – completei sem vacilar.

A lua cheia trouxera a maré alta; franjas de espuma arrojavam-se aos nossos pés. A aldeia estava adormecida; já passava muito das nove horas!

Ergui-me, mas o ateu permaneceu sentado. Olhava o mar que se avolumava mais a cada onda, como se estivesse hipnotizado pela massa negra que agitava tentáculos para nos alcançar. Surpreendeu-me o tom amargo de suas palavras quando disse, a voz embargada pela emoção:

― Sabe?... Eu e minha esposa nos separamos, por culpa minha! meus filhos não me perdoam. Viajo a fim de esquecer a coisa toda.

Ao ouvi-lo percebi, consternado e surpreso, que ele realmente sofria. Já o considerava um amigo. Diante do seu abatimento, esvaiu-se de súbito o meu entusiasmo pelas minhas teses. Porém, forçado a ser coerente com tudo que havia dito, ainda lhe disse, hesitante: – Confie em Deus!

Ele baixou a cabeça e nada disse, talvez resignado a fazer uma concessão absurda.

Retornamos à pensão, passando pelos casebres brancos, fechados e silenciosos. A noite havia esfriado. A maré trouxera um vento frio; o farfalhar das palmas do coqueiral agora era mais forte e opressivo, e no céu a lua começava a ser oculta por farrapos de nuvens escuras que se moviam ligeiro para o continente.

*

Passado não muito tempo, tive notícias do meu amigo. Sobre a mesa em meu escritório, no Recife, estava um envelope com carimbo do Sul. Continha uma fotografia em que, bastante rejuvenescido, ele tinha um braço sobre os ombros de uma mulher, olhando-a com ternura, os dois ladeados por um casal de jovens, todos sorridentes. No verso havia apenas uma frase: “Caro geólogo, anote este milagre!”

sábado, 25 de agosto de 2007

Soroke !!!

Sorokê !!!! Explanação ........
O Nome Sorokê, pode derivar de Osô-Arô-Okê, sendo que a partícula Osô significa “detentor do poder mágico”, Arô designa “um deus velho ou antigo” e Okê é “a montanha”, formando então o nome “antigo deus da montanha detentor do poder mágico” ou mais comumente, “Senhor do Alto da Montanha”.


nomenclatura Osô é um termo também utilizado para os Antigos Feiticeiros, ou designar “feitiço”, “maldição”, bem como nomes de deuses antigos há muito tempo esquecidos como Dsô, Osôgbô, Osô, deuses relacionados aos vulcões e montanhas, associados aos Vodun da família do Raio e do Trovão, como Heviosô, análogos ao deus Dzacuta ou Xangô.

Ogun sendo um deus da forja dos metais e do fogo, provavelmente, se fundiu, ou foi confundido, com o Orixá Okê e seu Exú Sorokê ligados não somente ao Pico das Montanhas, mas também aos vulcões.

Ogun Sorokê, portanto, é um Ogun ligado aos vulcões, ao magma e ao culto aos Osô ou feiticeiros seguidores de Okô.

É além de um deus vulcânico um grande feiticeiro, portador do segredo da forja de todos os metais, inclusive do ouro.

É possuidor da riqueza assim como o seu Orixá Meji Okê que é um deus também da prosperidade e da abundância.

É descrito metade Imole Exú Sorokê e metade Ogun, sendo portanto um deus da guerra, dos caçadores, da forja dos metais, das armas e da magia contida no ouro e no ferro.
O culto ao Orixá Okê, tal como, o dos Orixás Okô, Gunokô, Bayanni, Oduduwa, Onilê, Rowú e outros deuses que deixaram de serem cultuados no Brasil, perdeu um pouco das raízes africanas, sendo estes considerados deuses quase que extintos no Candomblé.

Este fato levou muitos sacerdotes deste culto, a reduzirem alguns Orixás a seres “encantados
Ogun Xoroquê (Sorokê), portanto, não é nem “exú de Umbanda”, nem Egun, nem “caboclo encantado”, ekunrun e afins, é um Orixá que surgiu de um culto do Orixá Okê e seu Imole Exú Sorokê fundido com o culto do Ogun Xoroquê (Sorokê).

terça-feira, 21 de agosto de 2007

ÍJÁLÁ ÒRÍSÁ ÒGÚN

ÍJÁLÁ ÒRÍSÁ ÒGÚN

Meje nire, Meje Logun
Ogun tode ni jé aja
Ogun ti olola ni um jé enia
Ogun mola mola nijé ekurú funfun
Ogun Ikola ni jé igbin
Ogun oni gbaja mo irun ori nijé
Ogun gbena gbena òjé igi ni um
Oto ni onire sambere
Aso ina ni aso egungun
Aso mariwo ni aso Osaniyn
Aso ina lo um bora
Iré ki se ilé Ogun
Oya ki won alagbebe
Ijo ma ni Ogun kan kole oró
Ero ti nronã awoye
Ode kenle ni mi omo ni lé teure
Oro Togun soro
Ogun ló pa ju ra
Ogun ló lóla ti ko si atewo
Ogun ló ko ebe ló gbin su
Okunrin sansangidi
Babá masangidi mo ni gba ni mo wi orisa
Orisa tó san wo iya mi tó bimi.

sábado, 18 de agosto de 2007

A Montanha ,a Evidência do Ser


A montanha é o elemento da natureza que podemos avistar de qualquer ponto que passarmos ao seu arredor. Um dos provérbios que os iorubás relatam sobre a montanha é o seguinte: “a montanha, por onde você passar irá avistar e ela lhe chamará a atenção pelo seu tamanho”, ou seja, de qualquer forma todo aquele que passar por perto da montanha se encantará pela sua grandeza e beleza, e assim chamando a sua atenção de qualquer ponto de onde for avistada.

Alguns mitos falam sobre a montanha, quando os seres humanos passam por alguma situação dificultosa. Eles querem dizer que a pessoa em questão deverá estar acima de tudo, mesmo que seu momento seja muito ruim em sua vida, então é considerado um bom sinal.

Orixá Oke, o seu nome contém traz a montanha, e esta é o símbolo deste Orixá, a sua proximidade ao céu azul, nos remete ao seu poder ligado, com as forças do ar, e ao mesmo tempo a grande montanha, colossal e evidente a todos os olhos, que conseguem reparar o seu poder silencioso e penetrante. Este Orixá é cultuado entre os iorubás na atualidade em algumas cidades próximas a “Abèokuta”. A relação de Orixá Oke com “ilé òrun” também muito forte no sentido de ser semelhante ao culto a Obatalá, embora isso não seja uma regra, apenas uma análise superficial, pois que os traços de cada Orixá são distintos entre si, e necessitam de nossa parte, muito cuidado, para este tipo de análise.

De todo o modo, este Orixá está relacionado ao culto a montanha, e por sua vez, esta se tornou a sua propriedade simbólica e seu atributo de axé.

Os cultos a Orixá Oke são realizados na montanha, bem como, os seus templos são edificados nas mesmas.

Os seus sacerdotes possuem o atributo da humildade, algo que falta muito entre nós do Brasil, mas uma humildade amiga, como sendo um homem sábio, a querer nos guiar com carinho o nosso destino, para a felicidade.